|
SAÚDE |
|
Fevereiro Roxo: Alzheimer, Lúpus e Fibromialgia em foco |
| Mês Roxo: Luta e cuidado contra doenças sem cura |
As três doenças não têm cura, mas medicamentos auxiliam no controle dos sintomas e até na remissão, auxiliando na qualidade de vida dos pacientes
Todos os anos, milhares de pessoas são acometidas por três doenças que só têm uma coisa em comum: elas não têm cura. O Alzheimer, o Lúpus e a Fibromialgia são tratados com medicamentos que auxiliam no controle dos sintomas e até na remissão, auxiliando na qualidade de vida dos pacientes. Não apenas como um movimento de conscientização, a campanha anual Fevereiro Roxo mobiliza principalmente, à responsabilidade do poder público e também da população, considerando que o Lúpus e a Fibromialgia, principalmente, são doenças consideradas “invisíveis”, e que o diagnóstico precoce auxilia no tratamento.
Alzheimer: uma doença prevalente
Da classe das doenças neurodegenerativas, a doença de Alzheimer acomete, de modo geral, o Sistema Nervoso Central e o cérebro. Ele também pode ser associado à demência – constitui a principal causa, sendo responsável por até 70% dos casos, ou à perda de memória. A doença envolve uma perda quase total de domínios cognitivos.
"A pessoa não só perde a memória, começa a se tornar repetitiva, ter uma uma desorientação espacial e temporal, não sabe onde está, que dia do da semana é. Começa a ter dificuldades na linguagem e dificuldade de encontrar palavras para se expressar", explica Eduardo Zimmer, head de pesquisa do Hospital Moinhos de Vento.
Estima-se que mais de 50 milhões de pessoas vivam com demência no mundo, e o número pode triplicar até 2050, com a maior parte dos novos casos concentrando-se em países de baixa e média renda, como o Brasil, onde se estima que cerca de 8,5% da população apresente algum tipo de demência. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), em 2025, foram registrados 157 internações no Rio Grande do Sul.
A fase inicial da doença começa com comprometimento cognitivo leve, e pode evoluir para perda de cognição e perda de autonomia. A grande maioria dos casos da doença, mais de 90%, ocorre depois dos 65 anos. Um neurologista deve ser procurado na presença dos primeiros sintomas.
Número de internações por Doença de Alzheimer no Rio Grande do Sul
2021 188
2022 232
2023 267
2024 278
2025 157
Fonte: Secretaria Estadual da Saúde, por meio do Tabnet, do Datasus. Internações segundo Município. Dados de 2025 parciais (jan-julho)
Para diagnosticar o Alzheimer, é feito, primeiro, outros exames para descartar as possibilidades, como falta de vitamina B12, que causa declínio cognitivo mas é tratável e reversível. O exame mais decisivo no diagnóstico assistido por biomarcadores é por meio de tomografia por emissão de pósitrons, chamado PET-Scan. Zimmer explica que ele localiza, no cérebro, espécies de “pedrinhas” no cérebro, chamadas de proteína amilóide.
No Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Moinhos de Vento, a ferramenta de imagem nuclear avançada auxilia no diagnóstico da doença de Alzheimer. Como explica o chefe de serviço e medicina nuclear, Gabriel Grossman, o equipamento híbrido realiza tomografia por emissão de pósitrons, que marca presença de radiofármaco em tecidos.
“Especificamente, no caso do Alzheimer, a gente injeta o florbetaben, que é um marcador da presença de substância amilóide, que está em excesso nos pacientes que têm doença de Alzheimer. O PET marca a presença do radiofármaco. E a tomografia localiza onde está a anormalidade”, detalha. O excesso de substância amilóide fica localizada no Sistema Nervoso Central. No entanto, o diagnóstico também passa por outras avaliações laboratorial e de multidimensional para excluir outros fatores.
No Rio Grande do Sul, um projeto financiado pelo Ministério da Saúde auxilia a desenvolver exames de sangue capazes de identificar a doença de Alzheimer. Iniciado no ano passado, irá avaliar 3 mil pessoas em 10 cidades diferentes, para verificar se os exames funcionam ou não para identificar a doença. Mas os biomarcadores seguem indicados apenas para pessoas que têm os sintomas.
Os fármacos anticolinesterásicos e glutamatérgicos ainda são utilizados para melhora dos sintomas, mas não impedem a progressão da doença. Alguns anos atrás, aumentou a busca por fármacos capazes de remover as placas de beta-amilóide, chamada de terapia anti-amilóide. Atualmente, no Brasil tem duas aprovações para o tratamento. No entanto, ainda é caro e inacessível.
O Serviço Especializado para Pessoas Idosas, o Saúde 60+ RS, atua de maneira interdisciplinar e em articulação com a Atenção Primária à Saúde (APS), direcionado a pessoas idosas em situação de fragilidade e com demências. Segundo a Secretaria de Saúde, dos 20 serviços previstos no Estado, 15 já se encontram habilitados e outros quatro estão em processo de habilitação ainda no ano de 2026.
As maneiras de prevenir a doença, ressalta o médico, são por meio de 14 fatores de risco modificáveis, em diferentes fases da vida. Entre os exemplos, estão a falta de acesso ao ensino, perda de audição, colesterol alto, depressão, trauma cranioencefálico, sedentarismo, diabetes, fumo, hipertensão, obesidade e consumo excessivo de álcool. Ao fim da vida, há o isolamento social, a poluição do ar e a perda de visão. É necessário, portanto, ter cuidado com os fatores para reduzir o risco - que chega a ser de 50%.
"Alzheimer é uma doença muito prevalente. A gente está falando de um em cada nove com mais de 65 anos. É muita gente que tem ou vai ter a doença. E a gente fala muito pouco sobre a doença de Alzheimer. Parece que a gente já nasceu aprendendo sabendo o que é diabetes", exemplifica. "O que eu acho que é importante é que a gente faça a doença de Alzheimer, se tornar um tipo de doença que a gente sabe desde o início da vida também. A popularização do conhecimento sobre a doença de Alzheimer é a coisa mais importante que a gente pode ter", disse.
Lúpus: uma doença de caráter crônico
O Lúpus, também chamado de Lúpus Eritematoso Sistêmico, é uma doença autoimune sistêmica, em que o sistema imune, ao invés de defender de infecções, começa a atacar o próprio corpo, e os anticorpos produzidos por essas células. A doença, de caráter crônico, acompanha o paciente pelo resto da vida do paciente. No entanto, ela costuma passar por períodos de maior e menor atividade, sendo mais controlada ou em remissão.
Os sintomas mais prevalentes são voltados à manifestações de pele, como lesões no rosto, pescoço e membros superiores, explica o médico reumatologista da Unimed, Guilherme Tres. As lesões costumam evoluir após a exposição solar. Como agravante, ela pode acometer os pulmões, coração, trato gastrointestinal e até o sistema neurológico, entre outros órgãos.
“Com os tratamentos atuais, a gente consegue manter o paciente em remissão”, lembra o médico. Existem tratamentos que estão em em estudo, voltados especialmente à terapias celulares. “Esses tratamentos têm se mostrado que o paciente pode entrar com a doença em remissão, a gente ainda continua não falando cura, mas em remissão sem tratamento, sem medicação”, explica Tres. A gente não sabe ainda ao longo do tempo se essa doença pode vir a reativar ou não”.
A campanha para a doença é voltada, principalmente, para evitar estigmas em pacientes. “Para deixar claro que a doença não é contagiosa. Apesar de ter lesões na pele, não é transmissível”, explica o médico. Também, para difundir o conhecimento das limitações que esses pacientes possam vir a ter no seu dia a dia e ter, promovendo maior compreensão da população sobre a doença.
Fibromialgia: uma incapacidade invisível
A Fibromialgia é outra doença também considerada crônica, em que a principal característica é a dor. “É uma dor difusa pelo corpo. O paciente pode ter em todo corpo ou uma dor mais em um local em outros momentos. Pacientes costumam relatar que são umas dores que caminham de um lugar para o outro”, afirma o reumatologista.
Ela é desenvolvida, especialmente, por alterações no processamento neurossensorial, que apresenta desregulação. “Muitas vezes, estímulos que o paciente recebe que não seriam interpretados por uma pessoa normal como dor, o paciente interpreta, mesmo sem ter um estímulo doloroso, sem ter feito uma lesão”, explica. Além da dor, outros sintomas associados à doença envolvem cansaço excessivo, alterações no sono, esquecimento, dificuldade de concentração e alterações relacionadas à ansiedade e depressão.
Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), cerca de 3% da população brasileira tem fibromialgia, e de cada 10 pacientes com a doença, sete a nove são mulheres. Com base no Censo 2022, no Rio Grande do Sul, essa estimativa representaria cerca de 326 mil pessoas com fibromialgia.
As pessoas acometidas pela doença devem, obrigatoriamente, praticar alguma atividade física. O tratamento da dor e outros sintomas são feitos com antidepressivos, relaxantes musculares ou neuromoduladores. Da mesma forma que o Lúpus, o tratamento auxilia no controle dos sintomas, apresentando mais qualidade de vida aos pacientes para ter mais autonomia em atividades diárias, ainda que permaneça com a doença.
“É uma doença que não é visível, e pode levar a uma incapacidade invisível”, afirmou o médico. A conscientização sobre a doença, portanto, auxilia tanto no conhecimento dela como na importância de promover atividades que auxiliam nesse tratamento, como os exercícios físicos.
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |






